Incineração de lixo entra na mira de movimentos ambientais e de catadores durante encontro

Representantes de movimentos sociais, ambientalistas e organizações de catadores discutiram os impactos da incineração, e defenderam alternativas baseadas na reciclagem e na economia circular.

Representantes de organizações ambientais, movimentos sociais e entidades ligadas à reciclagem se reuniram em Osasco, na Grande São Paulo, para discutir os impactos da incineração de resíduos e alternativas sustentáveis para o tratamento do lixo.

O encontro ocorreu em 22 de agosto, na sede do Sindicato dos Químicos Unificados, no bairro Km 18. A programação reuniu integrantes do Coletivo SOS Barueri, MNCR, Aliança Resíduo Zero Brasil, Frente Contra a Incineração e outras organizações.

Também participaram representantes da Frente Ambientalista da Baixada Santista, Unicata, Pimp My Carroça, Juntas por Barueri – Mandato Pretas, Erva Rasteira, Casita Matuta, O Que Resta da Floresta, Mandato Emídio, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Teia dos Povos e Coopamare.

A programação começou com a apresentação da campanha Não Queime Nosso Futuro. Davi Amorim, jornalista, educomunicador e coordenador de comunicação do Movimento Nacional de Catadores e Catadoras de Recicláveis (MNCR), apresentou a página da iniciativa.

Além disso, Amorim mostrou materiais produzidos em parceria entre o Instituto Pólis e a Aliança Resíduo Zero Brasil. Entre eles, estava a publicação “Mitos e Fatos sobre a Incineração”.

Na sequência, representantes do Pimp My Carroça e do MNCR destacaram os possíveis impactos dos incineradores sobre os catadores. Nanci Darcollete, diretora executiva do Pimp My Carroça, e Eduardo Souza, conhecido como Dudu, do MNCR, defenderam o reconhecimento social e institucional desses trabalhadores.

Segundo os participantes, a expansão de incineradores pode ameaçar políticas e iniciativas construídas para fortalecer a atividade dos catadores e a reciclagem.

Especialistas apresentam impactos ambientais e sociais

O primeiro bloco adotou uma abordagem de letramento sobre a incineração e seus impactos. O professor Ulisses Queixada abriu a programação com uma explicação sobre os Estudos de Impacto Ambiental e seus respectivos Relatórios de Impacto Ambiental.

Professor, mestre em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e ativista socioambiental, Queixada explicou a importância desses estudos para identificar alterações provocadas por novos empreendimentos no território.

Durante a apresentação, ele mostrou dados relacionados ao projeto da Ecourbis em São Mateus. Também destacou o impacto ambiental associado ao desmatamento de 17 mil metros quadrados.

O professor ainda citou o EIA/Rima relacionado a Perus e afirmou que, em sua avaliação, o estudo referente ao projeto de Barueri apresenta informações incompletas.

Poluentes e efeitos da queima de resíduos

Na sequência, o professor Jeffer Castelo Branco abordou os impactos da incineração sob a perspectiva da saúde socioambiental.

Doutor em Saúde Socioambiental, pesquisador e diretor da Associação de Combate aos Poluentes, Castelo Branco apresentou características dos resíduos gerados no Brasil.

Segundo ele, parte do debate legislativo busca construir uma percepção de que o lixo pode funcionar como combustível. Para o pesquisador, essa abordagem desvia a atenção das diretrizes previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Castelo Branco também detalhou os poluentes associados à queima de resíduos. Além disso, discutiu os possíveis efeitos ambientais e impactos sobre a saúde das populações localizadas no entorno de instalações de incineração.

A discussão reforçou, portanto, a preocupação dos participantes com os projetos que adotam a queima como alternativa para o tratamento de resíduos.

Arte, território e memória também fizeram parte da programação

Após as apresentações técnicas, o encontro abriu espaço para uma abordagem artística sobre território e questões socioambientais.

O artista de Osasco Ubirajara Lacerda apresentou parte de sua pesquisa, que conecta arte, natureza, memória, território e questões ambientais.

Em seus trabalhos, Lacerda utiliza fibras, tecidos, sementes e outros elementos naturais como matéria e linguagem. Sua atuação também inclui iniciativas no terceiro setor e atividades na Fundação CASA.

Dessa maneira, a programação ampliou o debate sobre resíduos e meio ambiente para outras formas de expressão e construção de conhecimento.

Catadores colocam o trabalho no centro da discussão

O segundo bloco foi conduzido por Samantha Alves, geógrafa e educadora ambiental. Catadora autônoma organizada pelo coletivo de economia solidária no CADSOL, ela também integra o conselho da Unicata.

Alves é ainda fundadora do Ciclo Infinito Consciente, movimento voltado à economia circular solidária.

A atividade começou com o CATA CAST, espaço destinado à escuta de relatos de catadoras sobre os possíveis impactos da incineração.

Sônia e Selma, catadoras autônomas de Perus e representantes da Unicata, compartilharam suas experiências. Ambas abordaram os riscos que os projetos de incineração podem representar para trabalhadores envolvidos na coleta e recuperação de materiais recicláveis.

Os relatos colocaram novamente os catadores no centro do debate sobre políticas públicas para resíduos. Afinal, a atividade desses trabalhadores está diretamente relacionada à recuperação de materiais que podem retornar à cadeia produtiva.

Encontro prepara carta e manifesto contra incineradores

Na etapa final, Samantha Alves organizou grupos de trabalho para elaborar coletivamente uma carta e um manifesto.

O documento reúne a posição de catadoras, catadores, movimentos sociais, ambientalistas e representantes da sociedade civil contrários à utilização de incineradores no tratamento do lixo.

Além da produção coletiva, os participantes realizaram registros audiovisuais. A proposta consiste em transformar o conteúdo produzido no encontro em um documento de mobilização e em uma campanha para as redes sociais.

Assim, o encontro encerrou a programação com uma articulação entre informação, participação social e mobilização.

A iniciativa também reforçou a defesa de alternativas ao tratamento de resíduos que valorizem a reciclagem, a atuação dos catadores e os princípios da economia circular.

Mais do que discutir a tecnologia de incineração, os participantes buscaram ampliar o debate sobre qual modelo de gestão de resíduos deve orientar as cidades.

Nesse contexto, a principal reivindicação apresentada durante o encontro foi fortalecer políticas de redução, reaproveitamento e reciclagem dos resíduos, além de reconhecer o papel dos catadores nessa cadeia.

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